Uma Questão de Confiança
Como a perda de confiança no governo é um fator crucial para entender o atual cenário econômico brasileiro.
Pedro Fernandes
1/24/20253 min ler
Há muito tempo, as ciências econômicas reconhecem o papel central que o senso de confiança mútua exerce sobre o processo de desenvolvimento econômico e social de um país. Há vários trabalhos importantes, como Knack e Keefer (1997), que demonstraram existir uma forte correlação entre confiança, desenvolvimento e equidade econômica.
Um pouco mais recente, Guiso, Sapienza e Zingales (2004) encontraram, por exemplo, que áreas com altos níveis de capital social, as famílias investem mais no mercado financeiro. Fukuyama (1996) entende que a mais importante lição que se pode aprender do exame da vida econômica é que o bem-estar de uma nação, assim como sua competitividade, são conjuntamente condicionados pelo nível de confiança inerente à sua respectiva sociedade.
A confiança é algo intrínseco a qualquer relação comercial e econômica. Desde o uso de um suplemento vitamínico, até um deslocamento via UBER, ou uma ida ao supermercado são elementos que somente são possíveis a partir de uma relação de confiança pré-estabelecida entre empresas, instituições do Estado que regulam essas interações e as famílias.
Com essa ideia em mente, é preciso reconhecer a gravidade do momento político e econômico que a Sociedade Brasileira enfrenta. Do ponto de vista macroeconômico, a “desancoragem das expectativas” nada mais é que uma perda de confiança na capacidade ou vontade do governo em manter a estabilidade de preços.
De forma complementar, a supernegativa reação dos brasileiros ao anúncio de maior fiscalização das transações PIX encapsula a desconfiança da sociedade no governo. O mau-humor dos brasileiros decorre de uma perspectiva defensiva, a partir de um pressuposto de que o único interesse do governo em fiscalizar o PIX seria elevar a carga tributária do brasileiro.
Nesse cenário, a desconfiança ganha a forma de amarras para o governo. No que tange à condução da política fiscal, o caso do PIX demonstrou que iniciativas para elevar a arrecadação serão duramente rechaçadas pela sociedade, o que reduz as chances de apoio no Congresso. Cortes nos gastos também ficam limitados, tanto pela perda de confiança já em curso quanto pela expectativa de perda de popularidade que gera no governo.
O núcleo duro do governo parece não entender ou não saber como agir diante da presente situação. A inação só é perturbada pelo acúmulo de fontes adicionais de celeumas que têm como principal repercussão a erosão da confiança no governo.
Nesta semana, foi divulgada uma carta aberta de ex-diretores e servidores do IBGE, manifestando descontentamento contra a conduta “autoritária” do atual presidente do órgão, Márcio Pochmann. É importante lembrar algo fundamental: tanto a taxa de inflação quanto a taxa de desemprego, pesquisas conjunturais e tantas outras estatísticas de relevância diária tanto para o desenho de políticas públicas quanto para a leitura do cenário macroeconômico são geradas pelo IBGE. A persistência de uma crise nesta instituição tem potencial para descredibilizar severamente o governo e, assim, inviabilizá-lo, tanto politicamente quanto economicamente.
Infelizmente, a esta altura, não há alternativa fácil. A macroeconomia, assim como a economia política, ensina que recuperar a confiança perdida é custoso. Numa situação de desequilíbrio fiscal, o tamanho do ajuste necessário para re-ancorar as expectativas é inversamente proporcional ao nível de confiança do mercado e da sociedade no governo.
E agora, o que o governo fará? Deve estar se questionando o amigo leitor, com toda razão. Bom, diante do que foi repercutido da última reunião ministerial, o governo já está em campanha para 2026. O que, em termos práticos, significa que não há “clima” ou disposição para encarar qualquer iniciativa que gere risco de impopularidade.
Diante deste cenário, é preciso entender que a economia brasileira irá conviver com maior inflação e maior custo de capital, e, consequentemente, desaceleração nos próximos dois anos. Se a desaceleração irá se tornar uma recessão antes de 26 ou em 27 é uma questão fortemente condicionada pela interação da Economia Brasileira com a evolução do cenário internacional, e como as restrições políticas internas irão ser exercidas.